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Update Macro: Fevereiro

3/10/2025

Comportamento do mercado em transição

O mês de fevereiro foi marcado por alta volatilidade nos mercados. Destacamos a deterioração das perspectivas cíclicas para a economia, evidenciada pela queda da importante variável Personal Spending (gastos pessoais), que não registrava um mês negativo desde março de 2023. Como o PIB dos EUA depende fortemente do consumo (aproximadamente dois terços), esse dado impactou a projeção de crescimento do PIB, medida pelo Fed de Atlanta, levando-a para território negativo. Esse movimento surpreendeu muitos participantes do mercado que, no final de 2024, mantinham uma visão mais otimista. Ainda existem mais dados que devem sair ao longo do mês de março e a observação da estimativa do PIB deve se alterar.

Prévia de estimativa de PIB pelo Fed de Atlanta, fechamento de Fevereiro.

Além disso, observamos um aumento das incertezas geopolíticas, especialmente na relação entre os EUA e a União Europeia. Acreditamos que os impactos de um possível distanciamento entre os dois blocos ainda não foram totalmente precificados pelo mercado. Vale destacar que alguns dias antes da reunião entre Trump e Zelenskyy na Casa Branca, realizada no último dia útil do mês, os mercados já demonstravam fraqueza. Os principais setores e índices da bolsa americana sofreram quedas, afetando especialmente as grandes ações que compõem os índices, conhecidas como Magnificent 7, que, ainda que temporariamente, perderam sua tendência de alta de curto prazo, operando abaixo das principais médias móveis observadas na análise técnica.

Medidor de incertezas nas políticas econômicas, Fed de St. Louis.

Outro evento relevante foi a divulgação dos resultados da Nvidia, uma das maiores empresas do índice S&P 500. Embora não tenham sido negativos, os números ficaram abaixo das expectativas, o que levou a uma queda superior a 8% no preço da ação em 27 de fevereiro. A fraqueza observada em empresas-chave, como Nvidia, Microsoft, Google e Amazon, reforça um ponto que temos mencionado há meses: 2025 é um ano decisivo, onde as grandes empresas precisam entregar resultados compatíveis com as altas expectativas. Caso contrário, a justificativa para os valuations atuais – ou a falta dela – se tornará ainda mais desafiadora.

Index Mag-7 Morgan Stanley, fechamento de Fevereiro.

A relação entre os juros longos do Tesouro americano e a bolsa pode finalmente começar a mudar. Nos últimos três anos, meses ruins para a bolsa também foram negativos para os bonds, comportamento diferente do observado nos últimos 30 anos. Isso tem prejudicado a lógica de diversificação entre renda fixa e variável. Entretanto, durante fevereiro, mudanças importantes na comunicação do novo Secretário do Tesouro Americano trouxeram um foco maior para a reciclagem de títulos longos e a relação entre a curva de juros, o ciclo econômico e a dinâmica de oferta e demanda nos leilões. Como resultado, os títulos mais longos do Tesouro registraram desempenho positivo, enquanto a bolsa permaneceu volátil e enfraquecida. Esse padrão não era observado desde agosto de 2023, quando ocorreu a “mini-crise” de Carry Trade no Japão.

Em outras ocasiões recentes, quando a bolsa demonstrou fraqueza, mas os juros longos caíram, como ocorreu neste período, os mercados encontraram suporte para retomar a tendência de alta, impulsionados por expectativas de cortes adicionais na taxa de juros pelo Fed. Acreditamos que a possibilidade voltará a existir em breve, mas, por enquanto e para aumentar a incerteza, Jerome Powell sinalizou, na última reunião do Fed, uma pausa no ciclo de cortes, iniciado em 2024, indicando que aguardará novos dados econômicos antes de decidir os próximos passos.

O mês de fevereiro reforçou a nossa visão de que 2025 será um ano decisivo, onde as grandes empresas precisarão justificar seus valuations e o mercado como um todo passará por testes relevantes. A volatilidade observada e os sinais mistos da economia indicam que a seleção de ativos e a paciência serão fundamentais para capturar as melhores oportunidades no momento certo. Seguimos atentos a esses movimentos e preparados para agir de maneira estratégica conforme o cenário evolui.

Sobre a tese do Acordo de Mar-A-Lago

O cenário econômico global está passando por mudanças significativas, e com isso, novas estratégias financeiras tornam-se necessárias para garantir estabilidade e crescimento. Estamos acompanhando o que denominamos "Acordo de Mar-a-Lago", um conjunto de políticas que podem transformar os mercados internacionais.

Supostamente, de acordo com analistas importantes como Jim Bianco e Stephen Miran, o Departamento do Tesouro dos EUA está considerando a criação de um Fundo Soberano, uma medida que permitiria uma gestão mais eficiente dos recursos financeiros nacionais. Além disso, há um crescente reconhecimento de que as reservas de ouro mantidas pelo governo dos EUA, atualmente valorizadas a US$ 40 por onça, precisam ser reavaliadas ao preço de mercado, atualmente em torno de US$ 2.900 por onça. Essa atualização fortaleceria significativamente o balanço patrimonial nacional.

A relação entre comércio e segurança também está sendo cada vez mais enfatizada. Há um entendimento de que os países que se beneficiam do guarda-chuva de defesa dos EUA também devem seguir princípios de comércio justo. Como parte dessa abordagem, tarifas estratégicas estão sendo avaliadas como ferramenta para corrigir desequilíbrios comerciais globais e garantir uma distribuição mais equitativa dos encargos econômicos e militares.

O impacto potencial no mercado financeiro e na volatilidade cambial continua sendo um fator crucial. O Dilema de Triffin ainda se apresenta como um desafio estrutural, à medida que a supervalorização do dólar gera ineficiências econômicas, principalmente para o setor industrial americano. Mudanças na política cambial podem afetar tanto a volatilidade dos mercados quanto as taxas de juros de longo prazo. Nesse contexto, há um movimento para substituir gradualmente as linhas de swap tradicionais pelo uso de Títulos do Tesouro de longa duração como âncoras financeiras globais para países aliados aos EUA, e que usufruem do “guarda-chuva de segurança americano” para comércio global.

No que diz respeito à China e à Europa, a aplicação de tarifas precisa levar em consideração o histórico de práticas comerciais desleais da China, incluindo subsídios estatais e roubo de propriedade intelectual. Por outro lado, a possibilidade de retaliação da Europa as propostas iniciais americanas representa um risco, mas um aumento nos gastos europeus com defesa poderia, paradoxalmente, beneficiar os EUA, reduzindo sua carga financeira na OTAN.

Para os investidores, essas mudanças apresentam desafios e oportunidades. A reconfiguração cambial pode gerar volatilidade, mas também abrir portas para novas classes de ativos. A provável imposição de tarifas e o ajuste estratégico do comércio afetarão diretamente a rentabilidade das corporações multinacionais. Além disso, ajustes na política de ativos de reserva podem influenciar os rendimentos do Tesouro e as condições de liquidez global.